terça-feira, 15 de maio de 2012

Sobre o Texto




Um texto é uma construção discursiva intencional, onde temos um autor que nos fala aquilo que ele quer e um leitor que ouve, também, aquilo que ele quer. Desta relação duplamente intencional é que surgirá o significado, é que se construirá uma linguagem, que se quer fazer como símbolo, uma linguagem que se quer estabelecer como nova, ou como constructo que algo já posto.

Por isso, as informações que certo texto nos apresenta são informações de alguém que tem uma carga intelectual e ideológica às suas costas, além de serem informações que querem convencimento, informações que clamam por reconstrução (e nem sempre reconsideração, como seria preferível que fosse, visto que, ao reconsiderar uma informação já dada é como se a tivéssemos incorporando em nosso legado psicológico e intelectual). Sua significação de mundo está totalmente estabelecida, à medida que nossa significação quer coadunar-se com a outra, nem que seja uma coadunação contrária e crítica.

O texto é uma construção para outrem, numa sociedade plena de significados e desejosa de novos signos.

Para que nós leitores consigamos compreender esta informação, sem ignorar o que está por trás dela, requer que tenhamos uma capacidade muito mais abrangente que a mera alfabetização. Precisamos de informações contidas na vida e no discurso do autor, além de precisarmos de uma capacidade intelectual de vislumbrar além do que está posto, mostrando ao mundo que também entendemos as entrelinhas.

Nesse sentido, o bom leitor é aquele que interage com o autor (além de seu texto) e, principalmente, com sua vida social e ideológica. Se conseguirmos assimilar esta capacidade, ou mesmo, esta liberdade de podermos nos debruçar sobre determinada obra e colocar nossa habilidade autoral, de forma automática, teremos maior possibilidade de destrinchar a fundo as informações – e contra-informações – que o autor quer passar.

Enfim, as habilidades requeridas para a leitura de um texto são as mesmas que precisamos ter para construirmos uma linguagem própria, com seus signos, sobre uma linguagem já construída, e totalmente intencional.

domingo, 29 de abril de 2012

Quem é o Defunto?



Bem, meu dia começou tranquilo. Como sempre, pulei da cama assim que meu celular despertou, sabe, o barulho de um despertador é meio incômodo, por isso o celular... meio que ainda cambaleante e sonolento levantei-me... acho que só fui abrir os olhos mesmo quando senti a água fria da pia batendo em meu rosto, sabe como é, a gente se levanta, mas nem sempre acorda... após isso comecei a escovar meus dentes e foi quando tocaram a campainha, achei estranho, baterem, aliás, me chamarem a esta hora. Ainda com água no rosto e a boca meio branca de creme dental peguei uma toalha e fui me enxugando até a porta... foi quando veio o susto! Bem em frente ao meu tapete, estirado no chão, vi um corpo ali caído. Ainda assustado resolvi cutucar o homem, vai que ele tocou a campainha e caiu, imagine que tinha sido um mal súbito, sei lá... nestas horas, ainda meio sonolento, a gente não raciocina direito. E foi aí que me assustei mais; ao cutucar sua cabeça vi que ela estava tombada, meio de lado... senti um frio, parecia algo molhado, em minhas mãos e foi quando a vi vermelha de sangue, desci um pouco mais meus dedos e foi quando notei que ele estava frio e rígido... sei lá, na hora a primeira coisa que pensei foi ligar para alguém, mas aí me lembrei da polícia. Vai que, ao demorar, ainda acham que eu tentei ocultar cadáver ou, sei lá, ter assassinado esta pobre pessoa, pois é seu delegado, foi isso. Foi assim que aconteceu... agora, uma pergunta: quem é o defunto?

sábado, 28 de abril de 2012

José das Couves... Um Solitário!




__ E então meu senhor, fala seu nome completo e, não se esqueça, aqui não pode haver mentira, isso é um depoimento.
__ Me chamo José das Couves, moro na rua das Taturanas, nº 01, bairro da Concórdia.
__ Conta como aconteceu o ocorrido...
__ Olha seu delegado, não sou muito de sair de casa, recebo poucas visitas, ou seja, sou uma pessoa muito reservada...
__ Tá, e aí, conte o que aconteceu primeiro, depois você fala de si mesmo. Não se esqueça que isso é uma investigação policial.
__ Muito bem, como eu estava dizendo, como sou uma pessoa reservada não sou de receber visitas, ainda mais a esta hora do dia, mas aconteceu.
__ Sim, que mais.
__ Eu tinha acabado de me levantar, já estava no banheiro, escovando meus dentes, e foi aí que a campainha tocou. Não pensei duas vezes, peguei uma toalha, ainda enxugando meu rosto da água fria e fui atender.
__ E depois disso.
__ Abri a porta e não vi nada, aquilo estava estranho, nenhum sinal de ninguém por perto, até achei que fosse trote. Foi quando olhei para o chão... e aí veio o susto.
__ E você conhecia a pessoa que estava ali no chão?
__ Não, pelo contrário, sinto que ele era era até um pouco estranho, parecia estrangeiro.
__ Por que você teve esta impressão...
__ Pela cor da pele dele, nunca vi uma pessoa tão cinza...
__ Não seria porque ele já estava morto?
__ Pois é, acho que é isso mesmo... interessante, eu não tinha percebido!
__ Tudo bem, volte aos fatos.
__ Abaixei meu corpo e toquei sua pele, ainda receoso... vai que o sujeito estava tirando uma com minha cara e deitado ali só para incomodar. Sabe, não sou um vizinho muito sociável, mas bem que gostaria que o sujeito fosse uma visita.
__ Sim... mas, se atenha aos fatos.
__ Foi aí que percebi que o caboclo estava frio. Aquilo foi estranho, nem estamos no inverno nada, e este sujeito gelado desse tipo...
__ Meu amigo, cadáveres são gelados, não sabia?
__ Ih é mesmo, estamos falando de um defunto. Agora que me toquei...
__ Tudo bem, termina logo seu depoimento que você já tá exagerando e tem mais gente para ser ouvido.
__ Certo, a partir daqui o senhor já sabe, né. Liguei para cá e falei com uma mocinha de voz macia. Gostei disso, sabe, não converso com muitas pessoas...
__ Tudo bem, já chega... o próximo!
__ Mas, seu delegado, ainda não acabei...
__ Acabou sim, próximo!!
__ Mas...
__ Sem mas, sai daqui senão o prendo por obstrução da justiça.
__ E a mocinha do telefone, posso falar com ela?
__ Alfredo, prende este sujeito. Tá obstruindo o serviço da polícia... sujeitinho abusado.
__ Sim senhor, delegado Feitosa!
__ Mas, espera aí eu sou a testemunha, não o culpado...
__ Sai daqui logo, antes que te dê uns tapas... libera este sujeito Alfredo, manda este elemento para... vai embora daqui, antes que eu fale alguma besteira e ainda serei processado por abuso de autoridade!
__ Que sujeitinho estranho heim doutor?
__ Realmente, é muito estranho. É como se o sujeito tivesse se utilizado do fato para ter alguém com quem conversar, não parece ser uma pessoa nem um pouco sociável esse talzinho aí. Daí as divagações constantes dele... isso é falta de gente na vida dele, Alfredo.
__ Tem razão, doutor, e agora, como faremos?
__ Vamos ver se tem mais alguma testemunha, que esse aí... sem chance.

sábado, 21 de abril de 2012

O Lobo da Estepe - Hermann Hesse (Recomendação de Leitura)



Só Para Loucos

O dia passara como normalmente passam os dias: eu o havia desperdiçado, dissipado suavemente, com minha primitiva e arredia maneira de ser; trabalhara algumas horas a compulsar velhos livros e sentira dores durante duas horas seguidas, como os velhos costumam sentir; engolira uns pós e me alegrara porque as dores se haviam deixado enganar; metera-me num banho quente e absorvera o agradável calor; recebera três vezes o correio e correra a vista pelas cartas e os impressos sem importância (...). Agradável, assim como ler os livros antigos [alfarrábios] ou demorar-me no banho quente, mas, afinal de contas, não fora a bem dizer um dia encantador [acho que bebi demais, e esta cerveja não me fez muito bem], nem brilhante, nem feliz, nem plácido, mas tão-somente um desses dias como desde algum tempo [um tempo tênue que não cessa em passar] costumam ser os normais de minha vida: moderadamente agradáveis, totalmente suportáveis, toleráveis, tépidos dias de um velho e descontente senhor, dias sem dores particulares, sem singulares preocupações, sem aflições especiais, sem desesperos, dias em que até mesmo a pergunta, de que se não seria o momento de seguir o exemplo de Albert Stifter e degolar-se com a navalha de barbear, era meditada tranquilamente sem emoção, sem qualquer sentimento de angústia. (Hermann Hesse: O Lobo da Estepe)

Ás vezes é isso, a escrita não-somente agustia, mas dá motivos para que a angústia vire vida. Quando leio Hermann Hesse me sinto assim: angustiado por mais vida.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Diálogos Impenetráveis II



Não é isso, a idade faz a gente encarar as coisas com um outro ponto de vista. Aparecem responsabilidades, as loucuras vão se esmaecendo e a gente vai virando refém de uma situação que, outrora, não tínhamos pensado. Pensar demais, e pensar a Filosofia em especial, faz a gente olhar para o mundo e tentar fazer parte nalgumas coisas e odiar outras. Sabe aquele ódio, talvez de desespero, ou mesmo de resignação por algo que não dá para mudar? Essas coisas mexem muito com a gente!